8 de jul de 2008

Carta à mãe do menino que não morreu

Texto irretocável.

Disse tudo o que muitos gostariam de dizer.

 

Enviado por Aydano André Motta - 2.7.2008| 16h34m

O crime da Baronetti
Carta à mãe do menino que não morreu

Doutora,

Antes de mais nada, os agradecimentos do blog, pelo trabalho que ajudou a mandar para a cadeia o perigoso traficante Fernandinho Beira-Mar. A gratidão de todos os cariocas e brasileiros se deve, aliás, porque aqui, nesta terra morena, obrigação é mérito - afinal, a senhora nada mais fez do que justificar o salário que recebe do contribuinte, como promotora de Justiça. Confere? Assim, não é verdade que a senhora deu sua paz e a de seu filho "em defesa de uma cidade melhor, em que todos pudéssemos viver em paz e sem medo". Desculpe, doutora, mas a senhora apenas fez seu trabalho, que, aliás, escolheu livremente, ao decidir a faculdade que cursaria e o concurso público que prestaria. Não tem nada de heróico nisso - ainda que, nunca será demais repetir, sejamos gratos.

Mas o assunto desta não é seu trabalho no MP. Infelizmente. O crime que agora lhe envolve é bem outro - a morte do menino Daniel Duque, assassinado à queima-roupa pelo guarda-costas que a senhora emprestou a seu filho, para ele atravessar a madrugada naquela catedral da bandalheira mauricinha chamada Baronetti. E aí, doutora, está tudo errado. A começar pela defesa que a senhora ensaia, na carta publicada nos jornais de hoje.

A senhora preferiu dedicar 18 dos 26 parágrafos do texto à própria rotina de servidora pública e seus parentes ameaçados por malfeitores. Direito seu. Mas é o caso de se lamentar, profundamente, o uso equivocado de um segurança que os fatos transformaram em assassino. Sim, o homem que guardava seu pimpolho na noite de Ipanema é um assassino. O trabalho bem-feito de um advogado como a senhora pode fazer prevalecer a tese da legítima defesa - por mais que pareça delirante, alguém se defender atirando contra pessoas desarmadas -, mas quem mata os outros, diria qualquer colega seu de MP, é assassino, certo?

A parte mais delicada - para o blog - e constrangedora - para a senhora - não é essa, e sim a das opções de lazer do seu rebento. Hoje, a polícia divulgou que sequer é a primeira vez que ele se mete em arruaças noturnas. Em janeiro do ano passado, Pedro esteve envolvido numa briga na Cat Walk, na Barra. (Aliás, não tem ameaça de facínora que faça seu menino desistir de uma boate, né não?) Então, vamos por um momento esquecer a promotora e falar de angústias de mãe. Não seria o caso de uma boa conversa com esse adolescente - "Um rapaz com valores rígidos, com caráter, decência e honestidade", como a senhora avaliza, e o blog tem certeza do seu esforço para sedimentar tais parâmetros -, para tentar modificar os hábitos noturnos que ele cultiva?

Pode ser impossível, claro. E aí, o que está errado, doutora, é oferecer um assassino para ir junto, cuidar da integridade física de seu herdeiro. Por óbvio, o blog sequer se estenderá sobre o equívoco absurdo, de um servidor público como a senhora servindo de babá para um jovem até cinco da manhã. Ora, que ameaçado é esse, que se sente seguro para ficar pela rua, num carro de seqüestrável - aquele BMW apreendido pela perícia custa R$ 145 mil nas boas lojas do ramo - madrugada adentro?

Mas, pelo menos, a senhora tem a esperança de mudar as preferências e administrar os riscos de seu filho, muito além do que pode garantir a vigilância de um matador. Dê graças, doutora. Porque Daniela Duque, mãe como a senhora, não pode fazer mais nada. O filho dela foi assassinado à queima-roupa pelo guarda-costas do seu.

Disso, doutora, a senhora tem obrigação de não se esquecer jamais.

http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/chopedoaydano/

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